sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Amor nos Tempos de...Whatsapp

    



      Alguém consegue dar uma definição sobre o amor? Creio que talvez a pureza das crianças pode dissertar sobre, ou os animais, no seu instinto, e se pudessem se expressar por palavras. Só a humanidade que não. Além do mais, é quase impossível. Amor não tem descrição, amor se sente, não se explica. E como é sentí-lo? Não só amor de um homem para uma mulher, e vice-versa (homem para um homem, ou mulher para uma mulher também), e sim pela vida, pela natureza, pelo universo, pelo todo. Eu pelo menos, infelizmente, ao longo dos meus 24 anos, ainda não julgo que tenha sentido-o profundamente na minha alma, sem amarras, sem cegueiras emocionais, sem medo. 

    Deixar que ele flua livremente é um passo árduo, pois, para que isso ocorra, milhões de emaranhamentos e traumas passados (e atuais) devem ser superados...e digamos que tais problemas sempre irão existir, e não se dissolvem num passe de mágica. Em adendo, como se não bastassem todas essas barreiras, temos uma sociedade a qual faz uma tremenda apologia e campanha a favor do ''não amor'', do desapego, e da poligamia, na qual gostar e se entregar a alguém ou a algo é praticamente inaceitável e só acarretará dor. E não, não digo isso com preconceito, não sou hipócrita, pois eu mesma me sinto evangelizada por essas teorias.

    Não obstante, tenho uma certa convicção de que tudo isso foi arquitetado como meio de fuga. Fugir da verdade, dos sentimentos, do que vem do coração, e focar totalmente na razão - ela tem razão, às vezes, mas a mente, mente, e confiar só nela, não leva a muitos resultados positivos - tem sido uma meta nacional. Parece até pecado quando a gente tenta deixar o coração se sobressair! É uma insegurança que não tem fim. 

    Voltemos ao título do texto. Ele faz alusão, como bem podem perceber, ao livro '' O Amor nos Tempos de Cólera'' de Gabriel García Márquez. Digo em tempos de Whatsapp a fim de fazer algumas observações a respeito desse amor maluco, ou melhor, desse ''amor'' distorcido que cresceu juntamente aos contemporâneos meios de comunicação que tanto nos ajudam e atrapalham nas relações interpessoais. Ter 324855 mensagens de 173746 conversas, ou 838372454828 likes em uma foto, ou 294857364738 pessoas te chamando no chat do facebook ganhou mais credibilidade que o calor de um abraço, a sinceridade de um sorriso e o poder de um olhar. Sei lá, isso é triste. E a tendência é que nos distanciemos cada vez mais disso, pois essa dependência tecnológica só potencializa nossa ojeriza por nos relacionarmos com o mundo.

   É um processo complicado, como se pode ler. Somatizando as resistências internas, com a sociedade em que vivemos, fazer com que esse sentimento torne-se verdadeiro, e confiável, se transforma em um objetivo por pouco, inalcançável. Bom, suponho então, que esse trecho me dá o ensejo se inserir uma parte de tal livro, que diz: "Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida." -Só é capaz de amar de verdade quem é forte, pois entregar-se resulta em danos irreparáveis, falar o que sente é proibido. Esse reino é traiçoeiro, e, aparentemente, quando nos permitimos conectar uns aos outros, isso se dá por pura projeção, carência ou dependência ( sim, isso não é bom, é simplesmente doentio), e não porque simplesmente acontece.

     Finalizo essa postagem com algumas perguntas, talvez retóricas: como desmistificar e reconstruir o amor? Como se libertar dos emaranhamentos e deixar que esse sentimento siga seu caminho natural? Qual é a senha pra desbloquear o coração?


“Nunca teve pretensões de amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor.” p.188 - O Amor nos Tempos de Cólera -  Gabriel Gárcia Márquez

Imagem: Os amantes - René Magritte -1928

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