Por vezes me pego em situações que me trazem uma insegurança imensurável. O coração acelera, as mãos suam, a boca seca, e uma sensação de torpor momentânea me transcende. É como se estivesse atada ali, naquele lugar, sem poder me mover, pisando em ovos e completamente cega. E quanto mais tento raciocinar, menos é possível, pois o medo, quando supera seus limites, tem uma habilidade dantesca de consumir toda nossa lógica e capacidade de reagir perante ao que está ocorrendo. A sensação é de que há um buraco de profundidade infinita e ignota pela frente, e mais um passo, você pode cair nele e talvez nunca mais sair.
Essa descrição refere-se ao pânico pelo desconhecido. Afinal, creio que é praticamente impossível sentir-se seguro perante algo que vai mudar totalmente o rumo da sua vida, do qual você não tem noção alguma, ou pouca, de como proceder. Isso acontece em inúmeras circunstâncias. Quando estamos próximos a um término de relacionamento, mudança de emprego, de fase da vida, de país, cidade, casa...quando temos que tomar uma decisão importante que pode afetar, além de si, outras pessoas queridas, e até mesmo quando é preciso falar um não doloroso. Enfim, esse temor aparece, resumidamente, em ocasiões em que a existência, em todo seu âmbito, exige certa mudança, e por mais que a gente saiba qual é o passo seguinte, aquilo ainda permanece estranho aos nossos olhos, pois ainda não foi vivenciado.
Contudo, qual é a dose de medo que nos move adiante, e qual é a que nos bloqueia? E se ele simplesmente não existisse, será que viveríamos melhor? Bom, na minha concepção, esse sentimento funciona como o freio da vida. Se pisarmos demais no acelerador, sem conhecer o caminho ainda, podemos dar de cara com um poste, uma árvore, ou perder o controle do volante e capotar, cair de um abismo e acabar com tudo. Logo, o medo vem, segurando, alertando-nos de que algo anônimo está por vir e que devemos pensar e sentir um pouco antes de tomar qualquer atitude. Se sem ele já agimos por impulso e irracionalmente muitas vezes, imaginem se não existisse! Nossos destinos seriam, em sua totalidade, inconsequentes...e não é agradável presumir qual seria o resultado.
Todavia, como tudo, o medo tem o seu lado obscuro (achava por muito tempo que ele só tinha esse lado). Em demasiadas quantidades, seu efeito colateral pode ser extremamente nocivo. Desse modo, ele é capaz de impedir que alcancemos objetivos de vida, ou até mesmo que nem percebamos que tais objetivos existem. Em altas doses, ele nos cega, nos trava, e nos faz regredir a fases anteriores, cheias de traumas e amarras emocionais. Como consequência, é impossível que nossa vida siga, de forma adulta e firme, para que nossos sonhos se concretizem, e que evoluamos como seres humanos.
Não se sentir amedrontado com nada é irreal, nem tentem discutir. E se alguém não sente nada disso, é melhor ficar esperto! Ninguém é onipotente a esse ponto (só em seus próprios mundos). E mais uma vez todo esse discurso me leva a perceber que o aliado da vida é o equilíbrio. Nem sem medo, nem com medo demais, mas com a quantia suficiente para perceber quando parar, sentir, respirar fundo e mudar de direção. O mundo adulto traz escolhas difíceis, e está em constante modificação. Cabe a nós absorvermos o que é bom, e jogarmos fora o lixo. E lembre-se: o desconhecido sempre vai ser arrepiante. Se tiver que fazer algo, faça, mesmo que com muito medo.
Finalizo com esse poema que diz muito por si só:
"A vida é assim:
Esquenta e esfria
Aperta daí afrouxa
Sossega e depois desinquieta
O que ela quer da gente
É coragem."
Guimarães Rosa
Imagem: O grito - Edvard Munch - 1893



